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Edição 331      29 de março de 2011


De Olho na Mídia

Barack Obama em foco. Mídia em xeque.

 

Janine Justen

Ilustração: Diego Novaes

No dia 15 de março de 2011, o presidente estadunidense Barack Obama e sua comitiva chegaram ao Brasil. Um enorme aparato de segurança foi comandado pelo Serviço de Inteligência daquele governo: prisão de manifestantes, fechamento do espaço aéreo, interdição de vias da cidade do Rio de Janeiro, vistoria de veículos da Polícia Federal e até a revista de ministros de Estado brasileiros. No entanto, os veículos de imprensa tradicionais realizaram uma análise pouco atenta a esses aspectos, privilegiando, isto sim, aspectos triviais na cobertura, como passeios turísticos da família, detalhes sobre a indumentária da primeira-dama e o carisma do mandatário ianque.

Segundo Cristina Rego Monteiro, professora da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, “noticiar a chegada de um presidente norte-americano não abre muito espaço para inovação nem para improvisação”. Assim, transformar a visita de Obama em um megaevento, mais do que esperado, é tradicional. “Evidentemente a leitura da realidade é feita a partir de um determinado ‘óculos’, já  que as grandes empresas jornalísticas têm como principal anunciante as contas governamentais”, declara.

Mas nem sempre foi assim. Antigamente, a imprensa atrelava-se mais a tendências políticas do que a fatores socioeconômicos. No Brasil Colônia, por exemplo, existia tanto um jornal declaradamente escravista quanto um antiescravista, um republicano e um conservador, corroborando máximas de liberdade intelectual e de expressão. “Desde que as empresas jornalísticas moldaram perfis de reprodutibilidade estimulada, nota-se uma estrutura hierárquica de capital, de investimento e de recorte de perspectiva ideológica e social que não está mais de acordo com o que a gente conheceu como sendo uma proposta de participação do livre pensamento”, afirma a docente.

Entre os acontecimentos que marcaram a visita de Obama, ignorados pela grande mídia, estão os primeiros ataques norte-americanos à Líbia e a prisão de 13 manifestantes em protesto no Consulado Americano. Neste contexto, a professora defende a participação da mídia contra-hegemônica como sendo a mais indicada para dar voz às minorias. “Só quando o twitter começa a funcionar e declarações individuais começam a surgir, a imprensa se pronuncia”, afirma Cristina. Para ela, existe um sistema de informação padronizado extremamente arraigado em nossa sociedade, o que gera coberturas superficiais e falhas. “Livre acesso à informação não significa obtenção de informação de qualidade e/ou mobilizadora”, alerta.

Mesmo existindo um viés alternativo, conforme explica a docente, a cobertura midiática global ainda se ajusta às grandes agências organizadas em moldes para satisfazer a maioria. Isto acaba por ratificar uma política social segregacionista, retirando a comunicação de um posto democrático para fixá-la num ambiente elitista. “Hoje, as grandes estruturas padronizam informação e as pequenas estruturas - que são mais adequadas pra dar voz a pequenos grupos de uma forma mais realista - carecem de credibilidade, porque, muitas vezes, nós não sabemos quem produz as informações”, defende.

Para Cristina, uma boa leitura midiática deve ser majoritariamente factual, apresentando filtros oriundos de cuidadosa apuração na tentativa de obter novidades acerca de circunstâncias já conhecidas. “Eu nunca vi, em tempos recentes, uma secretária de governo dar entrevista a respeito do assunto sobre o qual o presidente vai falar e ter quase tanto espaço quanto o próprio presidente”, exemplifica. Segundo a professora, a leitura secundária é chave para se fazer uma cobertura jornalística consistente, pois a abordagem em si é banal.

De acordo com a professora, uma boa dica para os futuros jornalistas é focar-se em análises críticas e fugir do tão temido senso-comum. Cristina alerta ainda que, em uma era moderna, na qual reinam o hiper-estímulo e os avanços tecnológicos, se torna cada vez mais difícil não confundir ferramentas com conhecimento de caso. “Eu acho a formação humanística fundamental. Ela é a base. Estão colocando o instrumento no lugar da essência do conteúdo e não é por aí”, conclui Cristina Rego Monteiro.

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