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Edição 250      19 de maio de 2009


Olho no Olho

Proibição do comércio de bebidas gera polêmica

Lorena Ferraz

Foi uma briga envolvendo alunos da UFRJ que impulsionou o reitor Aloísio Teixeira a vetar a comercialização de bebidas alcoólicas no campus da Praia Vermelha. No dia 16 de abril, cerca de 30 estudantes teriam tentado agredir um calouro, que começou a briga. Além disso, a sede da Divisão de Segurança do campus, para o onde o estudante foi levado, teria sido apedrejada. Segundo Hélio de Mattos, prefeito da UFRJ, outros problemas associados ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas no campus, como reclamações dos moradores da Rua Lauro Muller e um abaixo-assinado entregue pelos estudantes ao reitor, motivaram a decisão.

Alguns estudantes, no entanto, não concordam com a proibição. Em carta aberta ao prefeito, publicada no site Macacos Digitais, Gustavo Barreto, graduando da Escola de Comunicação (ECO), manifesta sua insatisfação diante da solução encontrada pela administração da UFRJ para resolver o que, segundo ele, foi um ato isolado de violência.

A fim de entender os motivos que levaram à proibição e as causas pelas quais alguns estudantes se posicionaram contra a medida, o Olhar Virtual conversou com Gustavo Barreto e Hélio de Mattos.

Gustavo Barreto
Graduando da ECO

“Sou contra a proibição do comércio de bebidas alcoólicas nas unidades da UFRJ. A Subprefeitura da Praia Vermelha não justifica sua decisão a partir de um quadro amplo de acontecimentos, a meu ver. Todos os principais problemas ocorridos por conta de bebidas – caso das choppadas e festas profissionais – aconteceram no Fundão e alguns poucos casos nas outras unidades. A decisão em relação à Praia Vermelha se deu por conta de uma briga ocorrida recentemente dentro do campus, cuja origem não pode ser creditada ao álcool.

Considero que a medida certa a ser tomada em casos como esse é muito simples e se faz em todas as universidades sérias que conheço: punição imediata para os infratores. Se for identificado que cometeram atos criminosos ou danos ao patrimônio público, que sejam punidos pelo que fizeram.

Eu já estudei em uma faculdade bem mais rigorosa, nos Estados Unidos, e uma festa ilegal dentro do campus, que não acabou bem, foi punida desta forma: os responsáveis foram identificados e, por pouco, não foram expulsos. Um grupo averiguou com interesse o que tinha acontecido e em uma semana tínhamos um quadro do que ocorrera. Enquanto isso, na UFRJ, abrem uma sindicância que demorará no mínimo três meses para começar a questionar as pessoas que estavam no local, se é que vão conseguir, pois com o passar do tempo o interesse pelo tema diminui.

O prefeito diz que as confraternizações não estão proibidas no campus e falta com a verdade quando diz isso. Ou desconhece a verdade. Os centros acadêmicos de Comunicação e de Psicologia já tiveram eventos vetados inúmeras vezes. Basta consultar seus representantes. O DCE também pode opinar sobre isso. Portanto, este é o primeiro ponto.

O segundo ponto é que a mesa de bar é um lugar absolutamente central na vida da universidade. Moralistas e burocratas de plantão – não me refiro ao Prefeito, ressalta-se –, que desconhecem o que é a vida acadêmica, falarão que é por conta da bebida porque, como disse, não sabem do que estão falando. Em qualquer grande universidade do mundo, o ambiente acadêmico é incentivado ao máximo, como forma de dinamizar as relações que ali se dão na longa jornada universitária. O jovem vive na universidade para aproveitar ao máximo essa experiência.

A partir disso, os bares cumprem esta função primordial: é o lugar primeiro de troca. As pessoas comem e bebem juntas e, assim, experimentam o espaço privilegiado que é a universidade. Em todo o mundo, desde a Europa Medieval, tem sido assim: as famílias portuguesas e francesas passavam três, quatro horas juntas almoçando, bebendo vinho (com álcool), pois essa troca era mais importante do que a produtividade.

Agora, se o prefeito ou qualquer outra autoridade acha que há um problema de alcoolismo no campus da Praia Vermelha, eles deveriam ter a nobreza de fazer um estudo sobre isso, porque senão é achismo. E achar por achar, qualquer um pode dizer o que quiser. Se há problemas pontuais com o barulho chegando a salas de aula, que se resolvam tais problemas pontualmente, e não 'matando passarinho com canhão', como meu avô dizia.

A priori, não acho que a bebida tenha um papel central na UFRJ, seja na confraternização, seja nos atos de violência. Isso quem acha é o Prefeito, que vincula diretamente o “excesso de bebida” – ou seja, nem sequer a bebida em si, mas seu excesso – ao caso do calouro da ECO.

Agora, eu gosto sim de sentar com amigos, ao final de um dia ou outro de trabalho, e tomar uma ou duas cervejas, bem como comer o sanduíche de queijo, tomate e orégano que o Tião prepara. Está comprovado que isso não mata ninguém, se moderado. Mas não posso mais, por conta da falta de lucidez das autoridades administrativas, que punem a comunidade da Praia Vermelha pelos excessos de um grupo de vândalos. A mesa de bar continua, mas fora do ambiente que é a segunda casa de muitas pessoas, a segunda família.”

Hélio Mattos
Prefeito da Cidade Universitária

“Recebi ordens do reitor para notificar os estabelecimentos comerciais, proibindo a venda e comercialização de bebidas alcoólicas no campus. Não me cabe discutir os motivos. Como prefeito me cabe respeitar e aplicar essa determinação. Na sessão de 14 de maio do CONSUNI, o reitor comunicou a todos e explicou seus motivos. Já existia uma determinação do Conselho Superior de Coordenação Executiva (CSCE) e memorandos de varias unidades da Praia Vermelha e do próprio CSCE, além de um abaixo-assinado dos alunos da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC). Em memorando oficial, a direção da Escola de Serviço Social (ESS) solicitou a adoção das seguintes medidas: a proibição do uso de bebidas alcoólicas no campus da Praia Vermelha e o isolamento do espaço existente entre o prédio anexo da ESS e o DCE , tendo em vista a permanente concentração de alunos no entorno do prédio do Diretório, gazeteando aulas, ingerindo bebidas alcoólicas, fazendo barulho em virtude do som alto oriundo de seus carros – dificultando o desenvolvimento das atividades acadêmicas do prédio anexo, o que compromete a formação profissional dos alunos, entre outros acontecimentos.

Não posso discutir punição. Existe uma Comissão de Sindicância em curso. Quanto a outras ações da UFRJ contra a violência associada ao alto consumo de bebida alcoólica, posso citar a campanha “Pé no Freio”, feita entre o DETRAN e a UFRJ através de um convênio assinado pelo reitor e o presidente do DETRAN.

O fato de o reitor responder por ações do Ministério Público Federal já é péssimo para a imagem da UFRJ. Além disso, existem cobranças constantes no CONSUNI de conselheiros que exigem uma atitude em relação a esses fatos.

Sobre a venda de bebidas alcoólicas na Festa Junina da UFRJ, posso dizer que assisti à reunião do CONSUNI do dia 14 de maio, e não vi nenhum conselheiro se pronunciar favoravelmente. Complemento dizendo que o fato de a proibição de comercialização e venda de bebidas alcoólicas nos estabelecimentos e bares atingir as barracas da festa junina não inviabiliza o evento. Não deixei de ir ao Maracanã assistir ao Flamengo ganhar do Botafogo pelo fato de nos jogos não se vender mais cerveja.”

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