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Edição 244      07 de abril de 2009


Ponto de Vista

Laboratórios podem diminuir o risco de acidentes com selo de biossegurança



Vanessa Sol


Insípido, inodoro e incolor. Essas são as características que o ar puro precisa ter. No entanto, uma pesquisa realizada, em 2007, pela Comissão de Biossegurança da UFRJ nas dependências internas e externas do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da instituição constatou que a qualidade do ar nesses locais não era satisfatória.

Na área externa ao CCS, frutos de uma árvore de carambola nasciam pequenos e defeituosos. Motivo: ela estava em frente ao exaustor de um laboratório do centro, o que constata que os poluentes lançados dos laboratórios no ar são agressivos ao meio ambiente. Nos corredores do CCS, a situação não era muito diferente. Foram encontradas 3 mil unidades formadoras de colônias por metro cúbico quando o aceitável são 750 unidades.

Essas são algumas situações de riscos encontradas na universidade. No entanto, a existência de outras é comum dentro dos laboratórios de pesquisa, podendo levar a acidentes de biossegurança e comprometer a saúde dos que trabalham neles.

Para levantar a discussão sobre a questão da biossegurança, dentro e fora dos laboratórios da universidade, e iniciar uma campanha de mobilização e conscientização sobre o tema, o Programa de Pesquisa e Governança de Risco, coordenado pelo professor Tomaz Langenbach, realizará uma reunião, às 14 horas, no Fórum de Ciência e Cultura (FCC-UFRJ). Foram convidados os coordenadores de laboratórios e os dirigentes de unidades acadêmicas.

Segundo Langenbach, que também é chefe do Laboratório de Toxicologia da UFRJ, na reunião pretende-se discutir estratégias de melhorias das condições de trabalho nos laboratórios, assim como a criação de um selo de biossegurança atestado pelas agências de fomento à pesquisa, que liberaria financiamentos somente aos laboratórios que comprovassem ter medidas de segurança compatíveis com o risco de sua pesquisa científica.

Para compreender a importância da biossegurança nas instituições de pesquisa e entender a proposta de criação do selo, confira a entrevista realizada pelo Olhar Virtual com o professor Tomaz Langenbach.

Olhar Virtual: Quais são os principais riscos que os laboratórios podem oferecer aos profissionais que trabalham neles?

O risco varia de acordo com o grau de periculosidade do laboratório. Há os que oferecem mais riscos; outros, menos. Eles estão classificados como laboratórios de alto, médio e baixo risco. A periculosidade dos laboratórios é diferenciada através dos materiais que eles utilizam. A nossa preocupação são os laboratórios de médio e alto riscos. Os laboratórios nos quais são trabalhados materiais radioativos, patogênicos, teratogênicos e produtos químicos agressivos são os que têm maior risco e são mais propícios a causarem acidentes.

Quando os devidos cuidados são tomados, o risco não é zerado, mas a possibilidade de eles ocorrerem diminui.

Olhar Virtual: Quais são os cuidados básicos para evitar acidentes de biossegurança?

O que nós queremos é implementar melhores condições de biossegurança nos laboratórios de pesquisa. Há instituições que tratam dessa questão de forma, razoavelmente, competente, enquanto há outras que não o fazem. Porém, não por falta de competência, e sim por não entenderem essa questão como prioridade. Às vezes, prioriza-se a produção em vez da segurança na execução do trabalho. As instituições mais responsáveis, em alguns casos, fecham os laboratórios que não seguem os padrões de segurança.

As pessoas precisam ter consciência do nível de risco do laboratório em que trabalham. Para isso, precisam de um número mínimo de equipamentos (fluxo laminar, capela, autocalve, entre outros) e instrução sobre biossegurança.

Acidentes acontecem, mas duas coisas podem ser feitas: a primeira é diminuir a possibilidade de eles acontecerem; a segunda é ter meios para combater os que acontecem.

Olhar Virtual: De que maneira a criação do selo se torna uma forma de enfrentar o problema de biossegurança nos laboratórios?

Como nossa preocupação está voltada aos laboratórios de médio e alto riscos, o selo seria desenvolvido para suprir o déficit de vigilância desses laboratórios. A ideia do selo é atestar a qualidade desses locais. Uma medida para que a vigilância seja realizada seria a de as agências de fomento à pesquisa cobrarem o selo de biossegurança aos laboratórios antes de fazerem o financiamento.

Olhar Virtual: Quantos profissionais se acidentam por ano em laboratórios?

Não há registros de acidentes nos laboratórios do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ, embora eles aconteçam.

Se os profissionais dos laboratórios com maior risco fossem submetidos à avaliação médica do trabalho, seriam diagnosticados vários casos de acidentes de biossegurança.

Olhar Virtual: Como o senhor definiria um laboratório 100% biosseguro?

Não há como defini-lo porque depende do grau de risco que o laboratório oferece. Para cada tipo de atividade realizada, existem pré-requisitos a serem preenchidos em termos de biossegurança.

Olhar Virtual: O selo estaria limitado aos laboratórios da UFRJ?

A ideia não é só criar o selo, mas levantar a discussão sobre esta questão que é tão importante. Se a criação do selo se efetivar, ele não estaria limitado à UFRJ, mas a todas as instituições que não tratam da biossegurança com o devido cuidado.

Olhar Virtual: A ideia é montar um curso para orientar estudantes e profissionais que trabalham em laboratórios?

Quando fazia parte da Comissão de Biossegurança do CCS, sugeri em reunião com todos os diretores de graduação que entrasse na pauta de discussão a inclusão de uma disciplina de biossegurança na grade curricular dos cursos de graduação. Nossa ideia era preparar um curso de biossegurança para alunos que ingressam nos laboratórios.

A ideia foi negada pelos coordenadores, que alegaram que a grade já estava muito sobrecarregada.

Então, resolvi propor um curso a distância, pois não precisa de espaço e o aluno pode adequá-lo à sua grade de horários. Concluído o curso, o aluno recebe o certificado. Essa proposta está pronta, mas quando deixei de ser presidente da Comissão ninguém mais mexeu no assunto.

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