Entrelinhas

“Filmar o real”: a importância do documentário no Brasil

Rodrigo Lois - AgN/Praia Vermelha

capa do livro

Da parceria entre Cláudia Mesquita, professora do Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e Consuelo Lins, que leciona na Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ, nasceu o livro Filmar o real: sobre o documentário brasileiro contemporâneo. A obra, ao estudar a “retomada” do cinema nacional dos anos 90, procurou analisar por que a busca pelo real nos documentários ganhou tanta importância entre cineastas e críticos brasileiros. O livro questiona também as fronteiras entre a realidade e a ficção. Outro ponto abordado neste trabalho foi refletir sobre os principais dilemas do documentário nos dias de hoje.

Em entrevista ao Olhar Virtual, Consuelo Lins comentou como surgiu a idéia de produzir o livro, bem como seus principais tópicos e conclusões. A professora também explicou a importância da compreensão da linguagem do cinema de documentário e a relação desse tipo de produção com a mídia.

Olhar Virtual: Como que surgiu a idéia do livro? Por que o documentário? Como é escrever em parceria com outra pessoa?

Partimos de um artigo para uma coletânea, a sair em um livro. Mas vimos que havia muita coisa a ser dita, tanto que daria um livro inteiro. Escrever em parceria é sempre um desafio, mas acho que encontramos uma boa relação.

Olhar Virtual: O livro tem como base o cinema brasileiro de “retomada”. Quais foram as principais características dessa renovação?

Na verdade, partimos do documentário pós-retomada – a retomada do cinema brasileiro se deu em meados dos anos 90 e nós partimos de 1999, que nos pareceu um ano de relevância para a produção documental brasileira, com três filmes importantes lançados, sendo dois deles em sala de cinema e um em TV a cabo. Foram eles: Santo Forte, de Eduardo Coutinho, Notícias de uma guerra particular, de João Salles, e Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Masagão. São filmes que apontam os diferentes caminhos que o documentário no Brasil tomou nos anos seguintes: Santo Forte aponta para a presença dos filmes baseados em entrevista; Notícias de uma guerra particular, para a questão do tráfico de drogas no cenário audiovisual brasileiro; e Nós que aqui estamos por vós esperamos, para a possibilidade de se fazer em casa, em um computador doméstico, um filme para ser exibido em tela grande.

Olhar Virtual: A análise do livro se foca nos documentários. Como se encaixam nesse movimento? Quais são as suas principais preocupações?

De forma geral, o documentário brasileiro segue abordando as camadas pobres e excluídas da população brasileira – moradores de favela, de rua, índios, presos, jovens delinqüentes, catadores de lixo, entre outros. A realidade no Brasil é tão “barra pesada” que são poucos os documentaristas que optam por temas diferentes. Porém, depois de Santiago, de João Salles, sobre o mordomo que trabalhava na casa da família dele, e Passaporte húngaro, de Sandra Kogut, em torno de uma história pessoal da diretora, os chamados “temas subjetivos” começaram a surgir no cenário audiovisual brasileiro.

Olhar Virtual: Essa “volta” à realidade do cinema documental nacional, misturada com um pouco de ficção, teria alguma influência de algum movimento cinematográfico moderno? Qual a relação entre ficção e realidade?

Não fazemos uma discussão teórica a respeito dessa questão, a idéia era fazer um livro panorâmico sobre o estado atual do documentário no Brasil. Mas implicitamente partimos do princípio de que o documentário não reproduz o real, que não é o retrato do real, mas produz visões subjetivas de diferentes aspectos da realidade. Nesse sentido, há muito de construção e dimensões ficcionais. De certo modo, partilhamos de um princípio caro ao cinema moderno dos anos 60 (nouvelle vague, os documentários de Jean Rouch) de que quando se coloca a câmera diante de qualquer situação ou de qualquer indivíduo, ocorre de imediato uma alteração. É essa realidade alterada que a câmera vai filmar.

Olhar Virtual: Qual o grau de influência das novas tecnologias leves, como os celulares que filmam, nessa produção documental?

As novas tecnologias contribuem para que muita gente comece a filmar. O documentário parece ser mais fácil de filmar do que a ficção, já que precisa de menos dinheiro. Seja de má ou boa qualidade, muitos filmes desse tipo têm sido lançados. Acho uma situação interessante e com boas perspectivas. As estéticas desses filmes são variadas, o que é positivo também.

Olhar Virtual: Como o documentário nacional atual procura abordar personagens e situações reais?

Essa abordagem é feita de várias formas: interagindo de forma clara, quando vemos a equipe e o diretor na imagem; quando as pessoas falam para a câmera; observando os personagens agirem sem interferir; colocando câmeras nas mãos do "outro" – índios, presidiários, moradores da favela – para produzir auto-representações; colocando sua vida em questão, nos chamados filmes subjetivos; e interrogando as imagens, em ensaios fílmicos.

Olhar Virtual: Os filmes com maior destaque até agora desse cinema contemporâneo foram Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, Carandiru (2003), de Hector Babenco e Tropa de elite (2007), de José Padilha. A maioria deles procura mostrar a realidade de alguns contextos sociais brasileiros, porém não são considerados documentários. O livro também aborda esses filmes ou só se concentra nos “verdadeiros” documentários? Você poderia falar um pouco sobre a relação entre documentário e mídia?

Concentramos-nos em filmes que são definidos como documentários, mesmo que neles haja procedimentos ficcionais. O que são documentários? Em resumo, filmes que os diretores apresentam como tais, ou seja, filmes anunciados assim. Quanto às relações entre documentário e mídia, hoje quando filmamos moradores de uma favela, por exemplo, muitas vezes eles já têm uma resposta pronta para nos dar. As pessoas aprendem com o que vêem na TV, então é importante desconstruir essa "fala pronta" que não deixa de ser "real", mas um real pré-formatado pela mídia.

Olhar Virtual: Apesar do incentivo do governo, os espaços disponíveis para o cinema documental brasileiro são adequados?

Esses incentivos são incipientes. Mesmo com a internet, com novos editais e fundações interessadas na produção documental, ainda é pouco.

Olhar Virtual: O livro também fala sobre um curta de sua autoria, o Leituras, filmado com câmera de celular. Qual era a proposta do filme?

Leituras é um curta experimental sobre o ato de ler em transportes públicos, esse momento de introspecção em meio ao caos do mundo. É uma situação que sempre me atraiu. O que eu fiz foi realizar um filme que me permitisse realizar um desejo: "ler os pensamentos daquele que lê". Isso só aconteceria num documentário ficcional, que é o caso de Leituras.